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quinta-feira, junho 19, 2003

Aviso 

Serve o presente post para avisar os leitores imaginários deste blogue (que, para além de serem imaginários, devem também ser muito desocupados e não ter algo de mais interessante para fazer) que, hoje, não será aqui colocado post algum.

quarta-feira, junho 18, 2003

Divulgação cultural I 

«- Então e a menina o que é que vai querer?
- Era um raja e uma lambeca, se faz favor.»

Breve apanhado de uma conversa entre um vendedor de gelados e uma cliente, enviado pela nossa correspondente anónima e fictí­cia na Madeira.

(O post está numerado, porque, espera-se - embora não se saiba ao certo quando -, seguir-se-ão outros sob o mesmo tema.)

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Ocorre-me agora que um gato em geral é coisa que não existe.

Femme et chat 


In memorium 

Morreu-me uma gata.
Se bem que eu não possa dizer que a gata fosse minha,
até porque os gatos em geral nunca são nossos.
Mas os meus gatos, mais do que os gatos em geral, não são meus,
e até vos poderia explicar porquê,
não fosse o cansaço e a consequente preguiça de escrever
- assim, sempre é algo que fica para vos dar que pensar
e, daí, talvez não – vá-se lá saber.
Ficam a certeza da morte da gata – sozinha
(como, de resto, parece ser o destino de todos os gatos) –
e a da falta que me fazem os gatos que não são meus.

terça-feira, junho 17, 2003

Silêncio 

Sempre tive muito mais medo do silêncio.
O silêncio assusta.
No silêncio podem estar todos os ruídos. E isso não é bom.
(silêncio muito prolongado)


Gonçalo M. Tavares, O homem ou é tonto ou é mulher, Campo das Letras

segunda-feira, junho 16, 2003

Portugal no seu melhor 

O normal funcionamento dos correios tem destas coisas: recebe uma rapariga um jornal de Sábado à Segunda-feira e durante o intervalo de tempo que medeia a saída do jornal e a sua recepção, depois de ter passado por aqui e por aqui, fica ela a perguntar-se o que teria, afinal, escrito Pedro Rolo Duarte sobre a Periférica. Segunda-feira chegada e DN em casa, pude, finalmente saciar a curiosidade… Parece que o sentido de humor, a ironia e o espírito crítico, ainda para mais quando aliados a uma boa escrita, são atributos que inquietam umas quantas pessoas. Imagine-se que a moda pega… Não, mais vale chamá-los de ignorantes, invejosos e outras coisas que tais… O costume, portanto. O texto de Pedro Rolo Duarte é Portugal no seu melhor - um Portugal a pedir que não lhe perturbem a serenidade e que não lhe metam os dedos nas feridas -, já devíamos estar habituados.

domingo, junho 15, 2003

A Ana 

O artigo veio na edição de hoje do Público. Fala Ana Gomes Ferreira de um movimento pro-anorexia em crescimento, na Internet. À doença é dado o carinhoso diminutivo de Ana e os doentes afirmam-se como pertencendo à “nação anorexia”. Não vale a pena repetir o que diz o artigo, está aí o link.

Não quis acreditar no que estava a ler. Pareceu-me demasiado irrealista. Pensava eu que a anorexia fosse um distúrbio individual relativamente mantido na sombra por quem o sofre. Ingenuidade minha. Encontrei os sites, os grupos de discussão, encontrei a carta da Ana, as regras, os truques e dicas… Chega a ser grotesco. Abstenho-me de fazer citações, até, porque, de resto, não é coisa que não possam encontrar através de um motor de busca…

Não sei se, de facto, existe o tal movimento pro-anorexia (na medida em que um movimento pressupõe uma certa organização e coordenação) ou se estes sites estão a surgir espontaneamente. De qualquer modo, não gosto. O facto é que os sites existem e transmitem a ideia de que a anorexia é algo de que eles (anoréxicos) se devem orgulhar («você vai poder ver seus lindos ossos», diz num deles).

O que mais inquieta é que não se trata, apenas, da defesa da anorexia própria, mas, também, do incitamento à anorexia do outro e, nisto, vale tudo, desde usar citações de Martin Luther King a Shakespeare, ou ainda o recurso a pérolas como esta: «Pessoas gordas são tão enormes! Mas mesmo assim, as pessoas olham para eles como se não existissem. Você já viu alguém NÃO reparar em um esqueleto ambulante?»

Na Internet encontra-se de tudo, eu já devia saber. É a liberdade de expressão no seu melhor (e no seu pior, escusado será dizer). Alguns desses sites desaconselham a sua leitura por pessoas influenciáveis, mas será que isso os pode ilibar de responsabilidades? Não me parece. Porque, certamente, existem responsabilidades, tal como também existem consequências. Quantos adolescentes vulneráveis e com predisposição para a anorexia não encontrarão nesses sites o impulso que lhes faltava? («Um dia eu vou ser magra o bastante. Apenas meus ossos, não um flesh desfigurado. Minha pura e limpa forma. Ossos. É isso que nos todos somos, é disso que somos feitos, e tudo mais é tempo perdido. Mostre-os, use-os.»)

Que se encare a anorexia como um estilo de vida eu ainda consigo compreender. Não aceito, mas compreendo - trata-se de uma questão de ponto de vista (apetecia-me dizer distorcido, mas talvez seja melhor não o fazer para não ferir susceptibilidades). Agora, que se divulgue a anorexia como um estilo de vida desejável, como um objectivo a alcançar, e que, em nome da liberdade de expressão, isso aconteça impunemente e sem qualquer controlo restritivo, já é algo que me custa muito, mas mesmo muito, a engolir.

E quem ganha com isto, afinal? Mesmo correndo o risco de ser tomada por paranóica, faço a pergunta: serão mesmo anoréxicos os que estão por detrás dos sites? E será que os servidores de domínios na Internet não podem seleccionar os conteúdos que os seus utilizadores disponibilizam? E será que lhes interessa fazê-lo?

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